Yes, nós comemos formigas

Bebel Jobim prova as maniwara, formigas típicas na alimentação indígena no Amazonas

Em junho, a Giral participou dos eventos de abertura do projeto 30 Pontos de Cultura Indígena, da Rede Povos da Floresta (leia notícias no site da Rede). Rodas de Conversa foram realizadas em Rio Branco, Marechal Thaumaturgo (ambas no Acre) e São Gabriel da Cachoeira (noroeste do estado do Amazonas).

Em São Gabriel, o município mais indígena do Brasil (95% da população, de 22 etnias diferentes) fomos recebidos com um jantar de pratos típicos da região. Caribé de açaí, doce de cubiu, inhames e batatas coloridas, beijus, ingá e cana-de-açúcar eram algumas das delícias vegetais disponíveis. As carnes? O campeão de elogios foi o ensopado de rabo de jacaré. Havia também peixe muquiado, paca, porco-do-mato e - acreditem - formigas refogadinhas. Na tigela, as maniwara (como os indígenas chamam essa espécie do inseto) mais pareciam lentilhas, mas a garfada logo revelava as muitas perninhas cheias de articulações. É esquisito, crocante, e saboroso.

Dia desses, visitando o blog do Yawanawa Tashka, o índio mais online do Brasil, deparei com um exótico café da manhã feito de... sapos! Cozidos no vapor, acompanhados de banana verde. Pelo Skype, Tashka me disse que não troca a iguaria por nenhum breakfast de Nova York.

Como vegetariana que sou, esses pratos naturalmente não apetecem muito. Mas a convivência com as lideranças indígenas da Rede Povos da Floresta me trouxe uma nova luz sobre a relação entre hábitos alimentares e sustentabilidade: o problema ambiental não vem do consumo de carne em si e, sim, da monocultura de carne.

Nas cidades, consome-se em geral apenas três ou quatro tipos de carne. Isso pressiona o sistema produtivo a gerar imensas monoculturas, como as pastagens - hoje uma das principais ameaças à floresta Amazônica e uma alarmante fonte de gases do efeito estufa. Da mesma forma, a produção de suínos no sul do Brasil é um gravíssimo problema ambiental.

Naturalmente, o mesmo raciocínio vale para os vegetais. Nessa última semana, a equipe da Giral visitou o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, em Montes Claros, uma das paradas da expedição Brasileirantes. Uma das coisas que chamou a atenção na visita foi conhecer a Rede Alerta Contra o Deserto Verde. Expressão cunhada pelo geógrafo Josué de Castro na obra Geografia da Fome, deserto verde refere-se às grandes monoculturas que acabam com a diversidade de fauna e flora nativas.
Em tempos de etanol e carbono zero, é um assunto que merece nota.

Em Montes Claros pudemos conhecer algumas alternativas que os agricultores familiares estão desenvolvendo na área de biocombustíveis. A diversidade de óleos é incrível: macaúba, gergelim, amendoim, mamona, catolé, neem, pinhão manso.

É claro que não estamos sugerindo que passemos a comer formiga no almoço e sapo no café da manhã, mas lembrar que buscar diversidade na alimentação é também uma forma de provocar uma economia mais verde. A mudança de nossos hábitos de consumo é condição indispensável para a transformação dos atuais modelos produtivos em sistemas diversificados e, por isso mesmo, equilibrados e sustentáveis.

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