Por uma cidade mais humana

Bicicleta como alternativa de deslocamento na cidade

Pode uma bicicleta ser mais veloz que carros, ônibus e até mesmo um helicóptero? Se estamos falando da cidade de São Paulo na hora do rush, a resposta é sim, conforme mostrou o quarto desafio intermodal, no qual usuários de diferentes meios de transporte “competem” para ver quem realiza determinado trajeto de maneira mais rápida.

O vencedor do evento foi o ciclista (22min.), seguido do motociclista e do bike courrier (ciclista de entregas rápidas). O helicóptero foi o quarto colocado. O homem que foi correndo chegou quase quinze minutos antes do carro, que demorou 1h22m.

O desafio intermodal é um dos eventos que compõem a campanha Dia Mundial Sem Carro, expressão de um movimento iniciado na Europa nos anos 90, que vem ganhando mais adeptos em todo o mundo a cada ano.

A proposta central do ato é a abstinência generalizada do uso do automóvel durante um dia (tradicionalmente o dia 22 de setembro, início da primavera no hemisfério sul) como forma de fazer com que as pessoas sintam e reflitam o quanto nossas sociedades urbanas estão estruturadas sobre essas máquinas. Ao propor esse “desafio” – o de cumprir as atividades diárias sem a utilização do automóvel - busca exercitar a criatividade dos cidadãos e expô-los à necessidade de reinventar, mesmo que por um instante, seu modo de vida, o olhar e a relação que estabelecem com a cidade.

De fato, a história recente do capitalismo e dos processos de urbanização está em boa parte calcada no automóvel.  Do lado da produção, a indústria automobilística constitui um segmento responsável pela geração de milhares de empregos e dinamização econômica; do lado da demanda, o carro representa, ainda, um dos principais “sonhos de consumo” e expressões de realização material.

Nos últimos anos, no entanto, desvantagens dessa forma de desenvolvimento econômico têm se revelado de maneira flagrante. Os malefícios concretos mais evidentes são congestionamentos, poluição do ar e acidentes viários. Numa perspectiva mais abstrata, o uso do transporte individual privado reforça uma cultura carente de senso comunitário, com indivíduos isolados e competitivos.

O Dia Mundial Sem Carro, assim como outros movimentos similares, busca chamar a atenção para impactos e contradições que esse modelo de desenvolvimento – a chamada “carrocracia” - traz à sociedade como um todo.

Na manhã do Dia Sem Carro, faixas espalhadas pela cidade de São Paulo lembravam que as patologias do uso excessivo de automóveis atingem outros órgãos além do pulmão, mas que existe tratamento.

 

O uso indiscriminado do automóvel gera, invariavelmente, o fenômeno dos congestionamentos urbanos e eis aí a primeira contradição: se o automóvel é uma ferramenta eficiente (isso é, serve para chegar mais rápida e confortavelmente), porque seu uso generalizado atua como contrapeso a esses ganhos de eficiência? A resposta é simples para quem observe que há um limite físico para o modelo de transporte baseado no automóvel, ou seja, as ruas e avenidas não podem suportar que todos se locomovam dessa maneira.

Do mesmo modo, o ar de cidade não suporta com qualidade a quantidade de poluição emitida pelos carros: pesquisas indicam que a expectativa de vida de quem respira o ar de São Paulo diariamente é reduzida em um ano e meio. Podemos ainda lembrar que a média de 4 mortes por dia no trânsito na capital. Quem nunca percebeu a ansiedade e agressividade que acometem os motoristas?

Os movimentos de reflexão sobre o uso do carro buscam fazer com que cada um perceba que é responsável por essas estatísticas. Em geral, a “carrodependência” faz com que as pessoas tendam a atribuir a culpa a terceiros, geralmente ao governo. Certo é que o setor público deve se empenhar para suprir a deficiência de transporte coletivo (ônibus, metrô e trens), bem como de transporte alternativo sustentável (como bicicletas), mas isso não isenta o indivíduo: nossas escolhas como consumidores são também atos políticos.

Aqui na Giral, os cinco consultores alternam seus deslocamentos entre caminhadas, pedaladas e transporte público: ônibus, metrô e trem. Duas das pessoas da equipe têm carro, mas preferem mantê-lo na garagem ao longo da semana. É mais uma forma de manter coerência entre crenças e atitudes, entre o que falamos e fazemos. O famoso walk the talk.

Praça do Ciclista, na Avenida Paulista

Esse ano, o Dia Mundial Sem Carro paulistano contou, além da tradicional pedalada de manifestação pela Avenida Paulista, com campanhas educativas relativas à mobilidade sustentável e intervenções artísticas. O protagonismo e a força do movimento estão na sociedade civil, que se articula para expandir essa proposta de uma cidade mais agradável para as pessoas.

 

O Dia Mundial Sem Carro é um evento pontual, mas está associado a diversas iniciativas que procuram promover o bem estar coletivo através de pequenas “revoluções” individuais - a mudança de hábitos. Boas referências na web são:

 

Planeta Sustentável: pra lá e pra cá

Apocalipse Motorizado

Rede do Dia Mundial Sem Carro

Projeto MelhorAr

Bicicletada

 

 

 

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