Biodiversidade também pode ser bom negócio

Dinheiro dá em árvore?

Grande avanço no sentido da aproximação entre economia e ecologia, foi lançado na sexta-feira 17 em Curitiba a certificação LIFE. Inédita no Brasil e no mundo,  será instrumento de gestão para reconhecer iniciativas empresariais em defesa da biodiversidade. A proposta é que o reconhecimento se dê na forma de acesso a capitais e posicionamento de mercado, o que cria relação positiva entre resultados ambientais e financeiros.

Presente ao evento de lançamento, o ministro Carlos Minc destacou que proteção ao meio ambiente não se faz apenas com policiamento. Ele explicou, por exemplo, que em contraponto da Operação Arco Fogo, de combate a crimes ambientais, o Governo lançou a Operação Arco Verde, levando para os municípios que mais desmataram a Amazônia alternativas como piscicultura e abertura de linhas de crédito no Banco do Brasil e Banco da Amazônia. O ministro disse ainda que seguem nessa mesma linha a criação do Fundo Amazônia e do projeto de lei de Pagamento por Serviços Ambientais. Essas iniciativas são execelentes indicadores da viabilidade do equacionamento positivo entre negócios e meio ambiente, um dos princípios de ação da Giral.

No caso da certificação LIFE, a metodologia utilizada permite que organizações de qualquer porte e setor de atuação possam se certificar. O processo envolve auditoria em três dimensões: aspectos legais, gestão ambiental, e ações para conservação da biodiversidade. As auditoras são credenciadas pelo Instituto LIFE.

Recém-nascido, o Instituto foi fundado em julho de 2009 pela união de esforços da Fundação Avina, Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, Posigraf e da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

A iniciativa merece nossa atenção por ser uma ação pragmática no sentido da integração entre economia e ecologia, e pela excelência das organizações que a respaldam. É inédito no mundo o reconhecimento da participação empresarial na conservação da biodiversidade. O endosso da ONU e do Governo Federal também são bons sinais de que a ideia pode ganhar escala.

Agora, cabe atentar para os processos de governança. A gestão centralizada pode criar riscos em relação a dimensões importantes, como transparência e abrangência. 

Podemos tomar como exemplo o caso da certificação de alimentos orgânicos: a maior parte dos processos existentes, controlados por alguns poucos institutos certificadores, são inacessíveis para pequenos agricultores por seu alto custo. Além disso, a centralização não favorece a transparência e o controle social. Normas padronizadas dificilmente dão conta da imensa diversidade cultural e ambiental desse Brasil tão múltiplo.

Existem experiências que demonstram a viabilidade de processos mais participativos. A Rede Ecovida de Agroecologia é uma organização que congrega cerca de 200 grupos de agricultores, 20 ONGs e 10 cooperativas de consumidores nos três estados do sul do Brasil, em 170 municípios. Há 6 anos a Rede vem executando, com sucesso, um sistema solidário de geração de credibilidade, onde a elaboração e a verificação das normas de produção ecológica são realizadas com a participação efetiva de agricultores e consumidores, buscando o aperfeiçoamento constante e o respeito às características de cada realidade.

O selo Ecovida é obtido após uma série de procedimentos desenvolvidos dentro de cada núcleo regional. Ali ocorre a filiação dos grupos produtores à Rede, troca de experiências e verificação do cumprimento das normas através de um Conselho de Ética.

Além de garantir a qualidade do produto ecológico, essa forma inovadora respeita a diversidade e gera aproximação entre agricultores e consumidores, provocando engajamento na causa agroecológica. Dessa maneira, o selo torna-se apenas um símbolo de um amplo processo indutor de transformação.

Não encontramos no site do LIFE informações referentes aos custos da certificação. Independente disso, o interessante é destacar que, mais importante que o selo em si, é o processo de geração de credibilidade que pode se tornar um novo marco nas discussões que envolvem sustentabilidade e mercado. Talvez o maior desafio do instituto seja atuar como articulador, capaz de ampliar o debate e o controle social em torno do compromisso empresarial com a biodiversidade.
 

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