Com amor e com ciência

Saíra-militar, ave típica da Mata Atlântica. Foto: Germano Woehl

Na manhã do seu aniversário, no último dia 25 de julho, Elza Nishimura seguiu a rotina comum dos sábados. Levantou cedo e foi comprar bananas para alimentar os muitos pássaros que freqüentam o quintal de sua casa, em Guaramirim. No interior de Santa Catarina, 34% da cobertura original de Mata Atlântica resistem à pressão humana. É uma das áreas mais bem conservadas do país - em média, restam apenas 7% da floresta.

Elza Nishimura, e uma semente germinando

"Eu me preocupo em dar a eles bananas orgânicas, sem veneno", conta Elza, com o carinho de quem cuida dos passarinhos como se fossem seus próprios filhotes. Ao se aproximar de uma das barracas dos tradicionais agricultores da região, Elza se deparou com uma cena inesperada: sobre o muro, uma saíra- de- sete-cores, linda ave típica da Mata Atlântica, sendo capturada por uma rotoeira.

É emocionante ouvir Elza narrando a história: "Eu fiquei tão chocada com aquela cena, que comecei a chorar de dar soluços!" Em lágrimas, foi conversar com o dono do estabelecimento, um senhorzinho de seus 80 anos, antigo morador da área.

Enquanto a maioria dos ambientalistas reagiria chamando a polícia ou o IBAMA, Elza utilizou outra estratégia. Entendeu a motivação do bananeiro - que era proteger sua produção de bicadas indesejadas - e procurou ampliar a questão. Explicou que, sem os pássaros, a floresta não se reproduz, a diversidade fica ameaçada. Comovida, enfatizou o respeito pela vida, o direito que esses pequeninos seres têm de viver em seu ambiente natural. Aproveitou a data especial para fazer uma certa chantagem emocional: "Por favor, senhor, hoje completo 50 anos, e meu presente é não ver mais essa matança". Havia uma força, uma sinceridade desconcertante em suas palavras. O homem desarmou suas ratoeiras e se comprometeu a abolir a prática.

Borboleta 88. Foto: Germano WoehlSe eu fiquei comovida ouvindo o caso, pode-se imaginar o bananeiro. "Quando vi os olhos dele cheios de lágrimas, senti que alguma coisa tinha mudado", conta, triunfante. "Punição é importante, mas não resolve. Eu acredito que não é a raiva, nem a polícia, que vão resolver esses problemas. O que educa é o sentimento". É daí que vem a força da atitude da Elza: da certeza de saber-se parte da natureza que ela protege.

É esse sentimento de pertencimento que orienta a ação do Instituto Rã-bugio. Desde 2003, a ONG que institucionalizou o trabaho do casal Elza e Germano Woehl promove educação ambiental junto a crianças e adolescentes. Em 6 anos, são mais de 20 mil atendimentos, tendo como prioridade escolas públicas da região.

A metodologia combina informações científicas, transmitidas em palestras e cartilhas, com sensibilização através de trilhas pela mata. "Nossa estratégia é romper com o medo, ou nojo, que as pessoas sentem em relação a coisas da natureza. Por isso a ideia de focar os anfíbios, que são seres normalmente tido como asquerosos, mas igualmente fundamentais para o equilíbrio ecológico", explica. O casal aposta que, superando esse distanciamento, as pessoas tornam-se mais capazes de incorporar o respeito ao meio ambiente em suas vidas, e assim influenciar amigos e familiares.

Há mais de 10 anos Germano registra em foto e vídeo a biodiversidade da região. São mais de 25 mil imagens da fauna e da flora, recurso valiosíssimo para professores, estudantes, e todos aqueles apaixonados pela natureza. Vale conferir o site do Instituto, que é organizado para facilitar as pesquisas. No acervo, os interessados encontram também arquivos de áudio: é possível conhecer o coachar de rãs e sapinhos, cantos de passarinhos e gritos de macacos, entre outros.

Nos dias 30 e 31 de julho, a equipe da Giral esteve pela segunda vez no Rã- bugio. A consultoria, realizada ao longo de um ano com financiamento da AVINA, teve por objetivo fortalecer as estratégias de captação de recursos do instituto. Foram duas linhas de pesquisa: empresas da região e organismos internacionais. Nessa segunda visita, elaboramos o planejamento para 2010, incluindo plano de ação e projeção financeira.

A rãzinha Phyllomedusa é a mascote do Instituto. Foto: Germano Woehl As principais fontes de recursos do Rã-bugio são programas de empresas, como Petrobras e Johnson&Johnson, além de fundações voltadas à preservação ambiental. O Instituto também recebe aportes através da vitrine de projetos da Bovespa, e doações diretas de pessoas físicas. Veja mais informações no link como contribuir.

Fotos: Germano Woehl e arquivo Rã-bugio.
 

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