
A função ambiental da reciclagem é evidente. A prática reinsere materiais descartados na cadeia produtiva, fechando seu ciclo de vida. Dessa forma, reaproveita matéria-prima, mitiga a necessidade de ações extrativistas, e reduz o acúmulo de resíduos em aterros e lixões.
Atualmente, ganha destaque a dimensão econômica dessa atividade. Cada vez mais, o mercado da reciclagem se torna dinâmico e lucrativo. Nos EUA, essa indústria fatura 120 bilhões ao ano. É um resultado equivalente ao das montadoras de carros americanas, e com margens de lucros maiores. No Brasil, os números são bem mais modestos: 1,2 bilhões de dólares anuais. Ou seja, é um mercado com imenso potencial de crescimento.
O universo da reciclagem é multidimensional, envolvendo não só questões econômicas e ambientais, como também significativos conflitos sociais.
Na base desse mercado, encontra-se a ilustre figura do catador. Ao tirar o que não é lixo das ruas, alimentando cadeias de reciclagem de inúmeras indústrias, reduzindo o volume dos lixões e aumentando a vida útil dos aterros, os catadores prestam serviços de interesse de toda a sociedade. Dada a freqüente insuficiência do setor público em fornecer serviços de coleta seletiva adequados, a atuação dos catadores de materiais recicláveis se faz indispensável para diminuir os impactos da sociedade do consumo.
As estimativas mais modestas indicam que hoje pelo menos 400 mil brasileiros vivem da catação – algumas pesquisas apontam que esse número passa de um milhão de pessoas. Assim, a reciclagem apresenta oportunidade de inclusão social e econômica de muita, muita gente.
O reconhecimento e a remuneração que recebem os catadores por seu trabalho, entretanto, ainda estão longe de serem justos. São seres invisíveis aos olhos de muitos, e encontram-se à mercê do poder de mercado de seus compradores, atravessadores e industriais do setor. Repete-se aqui o famigerado mecanismo de exploração de fornecimento de matéria-prima barata para sustento da lucratividade de grandes processadores.
A classe dos catadores de materiais recicláveis tem, apesar de todas as dificuldades, se se fortalecido, lutando por seus direitos e espaços. Em grandes cidades, muitos se unem sob forma de cooperativas, formas solidárias e consistentes de organização do trabalho. As cooperativas, por sua parte, dialogam entre si atuam juntas em processos de comercialização do material coletado, o que aumenta seu poder de barganha. Em 2001, foi oficialmente fundado o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), que luta pela independência e apoio mútuo entre membros da classe, a partir da autogestão. A Giral apóia o Movimento na profissionalização de sua gestão, desenvolvimento de planos de negócios sociais e outras atividades de assessoria executiva.
Esse ano os catadores de recicláveis organizam evento inédito, a Reviravolta – EXPOCATADORES 2009, que ocorrerá de 28 a 30 de outubro, no Mart Center, em São Paulo, reunindo mais de 1500 catadores de todos os estados brasileiros, América Latina e Caribe. A expectativa dos organizadores é receber, além dos catadores que participam do encontro, seis mil visitantes, entre empresários, organizações de fomento e profissionais ligados ao tema.
A Reviravolta – EXPOCATADORES abre um espaço de divulgação e intercâmbio de projetos voltados ao fortalecimento de associações e cooperativas de catadores. O objetivo maior do evento é potencializar o papel inclusivo destas organizações. Através de oficinas, painéis, mesas redondas, seminários e feiras expositivas, o evento tem por objetivos:
· Apresentar experiências bem sucedidas realizadas no Brasil, na América Latina e Caribe;
· Promover intercâmbios entre os setores (Estado, iniciativa privada e organizações sociais);
· Estimular o desenvolvimento de políticas públicas de inclusão das organizações de catadores nos sistemas oficiais de coleta seletiva solidária;
· Aprimorar as práticas de gestão organizacional, especialmente administrativo-financeiras, contábeis e jurídicas, das organizações de catadores e suas redes;
· Promover o acesso a tecnologias atuais para gestão das organizações, seleção de materiais, triagem, logística e comercialização;
· Apresentar os serviços e soluções que podem ser oferecidos na área de planejamento e gestão de materiais por parte das organizações de catadores;
· Fomentar processos de aprendizagem através de sistemática troca de experiências.
A Reviravolta – EXPOCATADORES 2009 conta com assessoria da Giral, e tem tudo para ser um marco na história de lutas e conquistas dos catadores de materiais recicláveis.


Imagens da cooperativa CAEC, em Salvador (BA).
Esteira de triagem na cooperativa CRUMA, em Poá (SP)
O vidro pode ser reciclado infinitas vezes, ao contrário de materiais como papel e plástico, que vão perdendo qualidade. Na foto, pilha de garrafas na cooperativa CRUMA, em Poá (SP)
Mateus Mendonça, consultor da Giral, e algumas das lideranças femininas da CRUMA, cooperativa em Poá (SP)
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