Para ler escutando

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De 27 de outubro a 18 de dezembro, a equipe da Giral participou do curso Formação de Educadores Comunitários do projeto Pantanal, coordenado pela equipe do CPCD - Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, nossos grandes parceiros de crenças e trabalho.

Foram dois meses de intensa convivência com um grupo de 35 moradores desse bairro recém-urbanizado da periferia de São Paulo. É belo ver as profundas transformações que acontecem em cada participante, especialmente voltadas à recuperação da capacidade afetiva, de reaprender a perceber o outro. Essas habilidades são absolutamente essenciais a um educador.

O que aconteceu nesse tempo que possibilitou essa transformação? Dinâmicas, jogos - corporais, cooperativos, intelectuais - dança, cantoria, ciranda, leitura de paisagens e livros, confissão de segredos, histórias de vida, atividades nas ruas e praças, cafuné, massagem, invencionice, brigas, declarações de amor... e muita, muita conversa em roda.

Nessas conversas, pudemos perceber que um dos maiores desafios da convivência humana - e, conseqüentemente, dos processos de aprendizagem - é o que o genial Rubem Alves chamou "escutatória".
Parece bobagem, mas não é tão simples escutar. É uma arte. Um ato de amor. Uma ferramenta, bem poderosa, de transformação social.

No cartão de Natal da Giral, vão nossos sinceros votos de um 2010 bem orelhudo, em que cada um de nós seja capaz de escutar mais, generosamente!

Escutatória
do escritor mineiro Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém  vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.  Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as  coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve  nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

 

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