
Na sexta-feira, 28/05, aconteceu a quarta edição do seminário Bancos Comunitários e Finanças Inclusivas, organizado pelo Centro de Estudos em Microfinanças da EAESP/FGV junto à escola canadense de negócios HEC Montreal.
A atração principal do evento ficou por conta de Joaquim Melo, empreendedor social que criou o Banco Palmas, num bairro favelizado de Fortaleza (CE), há 13 anos. Com o impagável carisma nordestino, Joaquim destacou que o sucesso da experiência depende nem tanto do serviço financeiro em si, e sim do grau de articulação e mobilização social da comunidade.
“Microcrédito é muito mais do que serviço financeiro de pequeno porte. Está inserido na lógica do ‘desenvolvimento econômico endógeno’, e deve estar atrelado à mobilização das pessoas, ao sentido de apropriação do local”, explicou, justificando a projeção no telão, que mostrava mutirões de obras e pessoas celebrando a construção de nova praça no bairro.
Joaquim contou que a iniciativa do Banco Palmas surgiu a partir de uma inquietação: “Como um povo que constrói seu bairro com as próprias mãos pode ser pobre economicamente?” A resposta que ouvia dos vizinhos era sempre a mesma: “A gente é pobre por que não tem dinheiro”. Teimoso, Joaquim se inquietou diante dessa obviedade.
“Fizemos uma ampla pesquisa de consumo, questionando o que as pessoas compravam, onde, e por quanto. A conclusão foi de que os moradores gastavam R$ 1,3 milhão por mês, e que absolutamente tudo que era consumido no bairro vinha de fora!”
Com sua visão de educador popular, Joaquim encontrou uma forma criativa de demonstrar esses fluxos econômicos e acordar a vizinhança para a questão: a dinâmica do balde furado.
Uma comunidade ou região é como um balde, cheio de bolinhas de isopor. As bolinhas representam toda a riqueza que existe no local. O problema é que, em muitos lugares, esse balde está furado.
“Quem já tomou banho hoje?”, perguntava Joaquim, animando a dinâmica. “E qual sabonete usou? De onde vem esse sabonete?”. Conforme identificavam o destino do dinheiro das compras cotidianas, retirava-se uma bolinha pelo furo do balde. "Aqui, o dinheiro indo para a multinacional X..." E assim por diante, até toda a riqueza ter vazado pelo furo.
“Toda comunidade é portadora de seu potencial de crescimento econômico. Não existe comunidade pobre. Existe comunidade desorganizada economicamente. O papel do banco não é apenas prestar serviços financeiros, mas principalmente organizar a economia local”, explicou Joaquim em sua palestra. “Um banco comunitário é colocar a rolha no balde”.
Atualmente, o Banco Palmas, assim como outros bancos ligados à Rede Brasileira de Bancos Comunitários, estrutura-se sobre quatro pilares de atuação: crédito produtivo (em reais), crédito ao consumo (em moeda local), capacitação, e correspondente bancário. Este último, que entrou na agenda dos bancos comunitários mais recentemente, é a grande aposta para a evolução desses projetos de economia local e solidária.
Correspondente bancário é a prestação de serviços bancários em estabelecimentos como supermercados, farmácias e correios. Hoje, alguns bancos comunitários realizam pagamento de serviços sociais como o bolsa-família, o que dá mais fôlego financeiro a essas instituições. “Quando a pessoa vem receber, damos a opção de pagar 30% em palmas, a moeda local. Quase todos aceitam, por que tem desconto nos comércios do bairro”.
A inserção desses serviços nos bancos comunitários deve estar acompanhada pela evolução de suas bases tecnológicas. “Um dos grandes gargalos para a inclusão bancária no Brasil é a dificuldade do povo em lidar com os sistemas, as planilhas, a burocracia”, explicou Joaquim, em meio a uma série de anedotas. Segundo ele, de todas as contas simplificadas abertas no Brasil, apenas metade mantém-se ativa.
Nesse sentido, o Instituto Palmas e a Rede Brasileira de Bancos Comunitários estão trabalhando em parceria com a ONG indiana Mahiti, criadora do Ourbank, um software de gestão de microfinanças especialmente desenvolvido para iniciativas de inclusão financeira. O seminário na FGV contou com a participação online de Vijay Rasquinha, da Mahiti, que de Bangalore falou da adaptação do Ourbank para o contexto brasileiro.
Segundo Vijay, um dos maiores gargalos é a comunicação entre as equipes de programadores da Índia e do Brasil. A ONG trabalha com a premissa de que a mão-de-obra local deve ser priorizada e desenvolvida. Outro princípio fundamental são os FOSS – Free and Open Source Softwares. Tudo é desenvolvido em softwares livres, com código aberto para que possa ser utilizado em outros projetos.
Além do aprimoramento tecnológico, outro desafio da vez é o desenvolvimento de indicadores. Neste tema, o seminário contou com a participação da equipe da Columbia University, que está desenvolvendo uma sistemática de monitoramento e avaliação para o Banco Palmas, além de projeto similar da EACH-USP, coordenado pela professora Tânia Christopoulos.
No site do Banco Palmas, é possível encontrar mais informações sobre o seminário, números do banco, e referências de diversas outras iniciativas de bancos comunitários e finanças inclusivas pelo Brasil. Vale a pena descobrir essas experiências que estão movimentando uma nova economia, mais humana e equilibrada.
Veja também:
Artigo sobre Desenvolvimento Endógeno publicado pela Incubadora de Cooperativas da USP (ITCP-USP)
tapando o furo
Muito legal o texto. É muito importante reconhecer e compreender os exemplos de sucesso de experiências de economia solidária no Brasil. O Banco palmas mostra que o desenvolvimento não esta nos modelos aplicados pelos paises auto-intitulados desenvolvidos. O desenvolvimento de um pais deve ser pautado pela evolução igualitária de suas comunidades. A crise mundial esta aí pra provar isso. Quanto mais enraizado o capitalismo em uma nação, maior sua crise. Lutemos juntos por um novo modelo! E por hora, o melhor exemplo, na teoria e na prática, é a Economia Solidária.
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